Entre os dias 01 e 03 de maio, na cidade de Colares-PA, por entre matas, borboletas e igarapés, aconteceu a atividade de imersão ‘Olhar Devagar’, proposta pela artista residente Malu Teodoro (RO), no âmbito do projeto Fotoativa em Residência – dois de cá, dois de lá, contemplado pelo Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais – 11ª edição.

O sítio Urutaí, do fotoativista Eduardo Kalif, recebeu cerca de 15 participantes inscritos na atividade. Confira a galeria de imagens, e em seguida, breves relatos individuais escritos por Malu Teodoro, Caroline Macedo, Irene Almeida, Adriele Silva da Silva e José Viana.

oi,

voltei de colares.
— que difícil sair daquele lugar!

a imersão continuou e foi me jogando cada vez mais pra dentro
agora de volta, tantas percepções
e penso nos desdobramentos.
tenho vontade de ouvir das pessoas, acho que faz parte do processo todo.

mas, ainda assim, posso falar por mim.
hoje comecei a escrever sobre a experiência e a coisa em si se escapa, e ficam rumores, reverberações
escrevi sobre tudo, menos sobre a imersão, mas ainda assim, muito sobre a imersão!

ainda falta, e falta muito, talvez não seja algo conclusivo, talvez não seja pra agora.
assim que tiver algo mais consistente, em forma de texto ou ideia, sopro pra vocês.

eu quis escrever sobre o encontro, e escrevi sobre muitas coisas que estavam em torno do que foram aqueles dias, e fiquei com a sensação de que não falei sobre o encontro em si. parece que me esqueço que o encontro foi justamente a criação desse espaço e tempo em que nos colocaríamos disponíveis para conviver, compartilhar e nos afetar.

eu não tirei alguma conclusão, não enxerguei nenhum resultado, mas senti muito.

sendo assim, nessa realidade flutuante mareada e úmida de terça,
peço a quem puder que coloque mais um ponto a esse encontro que considero que ainda reverbera: que respire fundo, visite em imaginação o igarapé, a borboleta azul, que escreva uma linha, que conte um conto, que solte palavras, imagens, o que viveu, do que sentiu, do que lhe marcou, alguma lembrança, alguma ideia, um sentimento, um compartilhar.

por Malu Teodoro

 

Parar, respirar e escrever, tem sido exercícios auto-propostos pra mim. Em tempo de leitura contínua de artigos científicos, livros, dissertações, mensagens instantâneas do whatsapp, postagens e compartilhamentos no facebook, percebi em mim a necessidade de parar! Precisava parar! Parar e deixar que as “palavras instantâneas” do cotidiano se transformassem em sentimentos que reverberassem e produzissem sentido em mim.

Assim, com o desejo forte de mergulhar numa água escura e não ter medo, resolvi passar o feriado entre pessoas que não conhecia, num lugar que nunca estive antes, com o celular desligado. Foi difícil. Mesmo com todo o clima de acolhimento, ainda me senti de fora, não fazendo parte. Fiquei com dor de cabeça, um forte indício de estar expondo meu corpo a uma situação que ainda não era. Eu ainda não era aquele sítio. Percebi várias resistências em mim. Minha roupa, meu sono, meu medo de água escura.

Mas nos outros dias, como num contraponto, quis fazer parte de tudo, na contemplação. Peguei minha câmera e comecei um exercício de contemplar. Juto a imagens, escrevi alguns versos soltos que se somaram a tantas conversas que tive com todos.

Contemplar! Ato simples de parar diante de uma beleza que se faz no olhar, sentir, tocar. Contemplei tantas coisas nesse sítio, que não caberia descrever. Das imagens que fiz, vez ou outra volto a contemplar essa que compartilho nesse e-mail. Folha molhada. Não lembro de a ter enquadrado. Puxo na memória o momento de ter ido até o igarapé com a câmera na mão e esbarrado com a folha molhada, mas não lembro. Acho isso ótimo! Sim! Não creio que, por não lembrar, aquele momento não tenha sido importante, pelo contrário, acho que eu estava “sendo” sem a preocupação de pensar em ser. Entendem? Eu, no meu ato contemplativo, estava vendo tudo com a beleza que lhe é própria, de coisa existente. Não sei se estou me fazendo entender, porque tento sentir e escrever ao mesmo tempo, e vou compondo meu email com essa vontade de dizer.

Depois do sítio esse sentimento tem sido recorrente. Em uma ou outra conversa, ou vendo o por-do-sol, ou cuidando do meu sobrinho, ou olhando o escuro do meu quarto antes de dormir, contemplo! Deixo que um sentimento que ainda não sei nomear me toque. Eu sinto, olho pra ele com olhos abertos e tento perceber toda a sua beleza. Sei que é verdadeiro pelo frio na barriga e sorriso bobo que ele me provoca.

Hoje ainda preciso escrever mensagens instantâneas de whatsapp, mas cada vez mais tenho o forte desejo de trocar vivências de contemplação com as pessoas. Parar, como nesse email, e tentar significar algo vivido em palavras não-instantâneas. Então, além de compartilhar o que “Olhar devagar, com Malu Teodoro”, foi pra mim, gostaria de deixar meu email disponível pra receber mensagens de quem quiser também parar alguns minutos/horas/dias pra escrever.

por Caroline Macedo

 

Malu… Como descrever sentimentos? Porque às vezes eles são tão intensos e cheios de mistérios… de descobertas… de encontros… Vida! E penso que foi tudo isso e muito … muito mais.

É descobrir que nem sempre sabemos o que nos espera após uma curva, mas que isso não nos impede de seguir o caminho.

É conhecer pessoas que se tornam especiais na sua vida, como se já fizessem parte dela há muito tempo.

É se sentir acolhida, abraçada e esquecer o mundo lá fora. Esquecer que ele te cobra coisas e que nem sempre isso é bom. No entanto fazer parte de encontros como o do Olhar devagar…momentos como o que tivemos, que fazem diferença na vida. A vivência, o bate papo, a dança, uma conversa mais próxima. Um turbilhão de coisas minha querida que nem sempre pode ser descrita, pois só vivendo e sentindo na pela e na alma. Obrigada!!!

por Irene Almeida

 

possibilidade de esvaziar.
exercício tão necessário a um horizonte de acúmulos
leituras, conhecimentos, aprendizados, experiências, títulos, currículos, carreiras.

reencontrar o Vazio como um possível lugar da existência.

por José Viana

 

Atrave[s]Ando

Corpo Paisagem
Pelo [mato] [mata]
Virgem
                   densa
Morena de barro
Se enfeita com
barcos
           que balançam
       balançam
                           balançam
ao vento   venta   vem.

por Adriele Silva

 


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